Cruzando a África de bicicleta

As bicicletas seguiam a faixa de asfalto através do Saara, na Mauritânia, e a paisagem se modificava. Uma planície desolada se estendia em todas as direções até o horizonte, desaparecendo em uma imensa cúpula de azul pálido. O vento que soprava implacável sacudia o traje de um nativo que caminhava ao longo da estrada. E havia os trailers puxados a trator. A cada 10 minutos ou mais, um caminhão aparecia a distância, levantando poeira em seu rastro. Com apenas duas pistas estreitas, o melhor recurso era segurar firme o guidão e baixar a cabeça quando um deles passava, com o deslocamento de ar empurrando a bike e nos cobrindo de poeira.

Daniel Rodrigues / The New York Times
“Uma planície desolada se estendia em todas as direções até o horizonte”, relata o jornalistaDaniel Rodrigues / The New York Times

Na categoria turística ciclismo de aventura, de rápido crescimento, é seguro dizer que essa versão – a West Africa en Vélo, a primeira expedição da TDA Global Cycling através da África Ocidental – era radical. Não apenas por causa de sua duração (6.220 quilômetros atravessando sete países e um território disputado durante 10 semanas, com uma média de 113 quilômetros por dia), mas pela localização. A área é mais associada à guerra civil, a doenças e aos extremistas do que a desafios do tipo “fazer antes de morrer”. Mas, como a estabilidade política e econômica aumentou nos últimos anos, o mesmo aconteceu com o número de turistas estrangeiros.

A ideia era pedalar e acampar de Casablanca, no Marrocos, a Costa do Cabo, em Gana, através das Montanhas Atlas marroquinas, do deserto no Saara Ocidental e na Mauritânia, e de terras agrícolas, de florestas tropicais ou do litoral forrado de palmeiras no Senegal, na Guiné, em Serra Leoa, na Costa do Marfim e em Gana. Dezenas de ciclistas se inscreveram para a viagem, que custou US$ 12,9 mil para os 72 dias; aqueles, como eu, que se juntaram para um trecho de duas semanas pagaram US$ 2,9 mil.

Os participantes – a maioria com 50 anos ou mais, muitos da América do Norte e da Europa, e um terço composto por mulheres – trouxeram suas próprias bicicletas e equipamentos de camping, que eram transportados em um caminhão. Uma van parava para oferecer o almoço na metade do trajeto diário, enquanto os líderes faziam a rota em SUVs, com um membro da equipe pedalando atrás do grupo. Aqueles que não conseguiam completar o trajeto do dia podiam pegar carona em um dos veículos.

Juntei-me a eles no fim de outubro, 1.770 quilômetros após seu início, no Saara Ocidental, o território disputado ao sul de Marrocos, reivindicado por este país e pelo movimento separatista Frente Polisário. Esse trecho de duas semanas teria 1.287 quilômetros ao longo da costa, através da Mauritânia e entrando em Dakar, a movimentada capital do Senegal. 

Do banho de gato ao desmaio por exaustão

Na minha primeira manhã na West Africa en Vélo, pedalei duro por meia hora para alcançar duas ciclistas à minha frente enquanto o sol se levantava sobre o deserto. A dupla – Annegrete Warrer, 65 anos, que vive na Áustria, e Hanne Renland, de 62, da Noruega – se encontrou no voo de Paris para Casablanca três semanas antes. Warrer estava em sua sétima turnê TDA e iria pedalar até Dakar, e Renland, que começou a praticar o ciclismo em 2017, estava em sua segunda. Ia fazer a rota completa.

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Um ciclista e sua barraca – tecnologia em meio à naturezaDaniel Rodrigues / The New York Times

— Queremos viver a vida ao máximo — disse Renland, com seu computador na bicicleta exibindo 35 km/h. — Está na hora de aumentar nossa quilometragem.

Pedalamos sem parar por meia hora. O oceano estava à nossa direita quando passamos por várias lojas de kitesurfe na Península de Dakhla, que recebe um número crescente de turistas europeus. Gaivotas voavam sobre nós. Descansamos perto de uma aldeia deserta, abandonada. Perguntei-lhes do que gostavam na turnê.

— É a experiência total — disse Warrer, dona de uma agência de viagens. — É aquela coisa cotidiana: o ritmo, montar a barraca, dormir, comer juntos, sair na bicicleta e depois ver se há algo interessante para fazer pelo caminho.

Duas horas depois, chegamos ao acampamento no deserto, completando um dos trechos mais longos da turnê, 161 quilômetros. Minha virilha estava em carne viva, as pernas, exaustas, e meus pés doíam por causa do tênis de ciclismo.

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Hospedagem “estrelada”: acima, o lindo cair da noite no acampamento na MauritâniaDaniel Rodrigues / The New York Times

Ainda não era hora de descansar. Fui apresentado à rotina que as três dúzias de outros ciclistas já haviam adotado: pegar sua mochila no caminhão, encontrar um lugar e montar sua barraca, encher um balde d’água para um banho de gato, comparecer à reunião dos ciclistas às 17h30min, fazer fila para o jantar de arroz com frango ou massa com carne, sentar e conversar sobre o trajeto, os passeios passados e as contusões, pegar uma pá e cavar um buraco para servir de banheiro, desmaiar de exaustão, geralmente por volta das 20h ou 21h, para acordar às 5h30min na manhã fria e escura.

Naquela noite, o vento estava forte e minha tenda chacoalhava enquanto dormíamos sob uma abóbada de estrelas brilhantes.

Polícia e militares têm a rota das bicis

Depois que nossos passaportes foram carimbados em um posto de fronteira controlado pelo Marrocos, pedalamos em uma estrada de terra batida (na Mauritânia, uma área lembrava um cenário de Mad Max). Em meio ao lixo e à areia, havia longas filas de carros batidos, abandonados. Homens andavam pelo ferro-velho improvisado, dirigindo-se a nós em francês.

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Perrengues: em alguns trechos das praias do Senegal, ciclistas precisaram descer das bikes e carregá-lasDaniel Rodrigues / The New York Times

A fila se moveu lentamente ao passarmos pelo escritório de vistos. Entre a coleta de nossas impressões digitais e fotos e um pagamento de 55 euros cada, quase três horas haviam se passado.

— Isso é mais difícil do que pedalar — disse Warrer.

Passei a maior parte da turnê na Mauritânia, que, como vários outros países da região, se tornou independente da França em torno de 1960. A maior ameaça para o ciclista não é ser atacado por militantes, mas ser atropelado, disse-me Henry Gold, proprietário da TDA. Ele comandou uma organização não governamental no leste e no sul da África antes de iniciar a TDA em 2003 com o Tour d’Afrique, uma viagem de quatro meses do Cairo até a Cidade do Cabo. Agora, a TDA oferece 16 excursões em seis continentes.

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Recompensas: em alguns momentos, tiveram o mar como companhiaDaniel Rodrigues / The New York Times

— Fiz o Tour d’Afrique, mesmo quando diziam que eu era suicida, porque conheço a África — disse.

Uma grande vantagem, disse Gold, é que a polícia e os comandantes militares estão determinados a não deixar que nada aconteça a um grupo de turistas internacionais em seu turno. Ele contou que a TDA fornece a rota das bicicletas às autoridades e elas determinam o nível de segurança.

Infecções, viroses, braço e clavícula quebrados

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Um mulher em Lompoul, no Senegal, um dos sete países visitados na expediçãoDaniel Rodrigues / The New York Times

Durante a jornada, vários ciclistas sofreram infecções ou viroses, e dois ficaram gravemente feridos em acidentes. Houve um braço e uma clavícula quebrados. No meu último dia, o trecho de 48 quilômetros seguiria a estrada costeira para Dakar, a primeira rodovia de quatro pistas da viagem. Mas havia a opção de pedalar na praia, e cinco de nós assinaram renúncias isentando a TDA de qualquer contratempo em nosso desvio. Passamos por Lac Rose, um lago de água salgada com algas que às vezes lhe dão uma tonalidade rosa. Nessa manhã nebulosa, estava cinza brilhante. Homens sem camisa, com água até a cintura, buscavam cristais de sal para vendê-los a gourmets na Europa.

Nos dois dias de descanso na capital, experimentamos o peixe local com arroz em restaurantes à beira-mar. Tomamos uma balsa para a Ilha Gorée, onde antigas casas de comércio de escravos e ruas de pedra estreitas sombreadas por volumosos baobás estavam cheias de turistas ocidentais.

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Uma garota muçulmana em vilarejo da MauritâniaDaniel Rodrigues / The New York Times

Embora eu estivesse contente por não ter mais de acampar nem pedalar de oito a 10 horas por dia, também queria continuar. Mas meu passeio tinha acabado. O grupo ainda seguiria por mais 3,2 mil quilômetros.

Por Patrick – Scott via:gauchazh

One comment to “Cruzando a África de bicicleta”
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